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Câmeras de viaturas flagram abordagem e contradizem PMs denunciados por sessão de tortura em Santa Teresa

Ao prestarem depoimento na Corregedoria da PM, os oito policiais militares da UPP Fallet/Fogueteiro acusados de submeter seis jovens a uma sessão de tortura em Santa Teresa, na Região Central do Rio, na véspera do Natal, negaram qualquer crime durante a abordagem. Disseram que, “como se nada que configurasse o cometimento de ilícito penal foi encontrado”, todos os garotos foram liberados logo após as revistas de praxe. Entretanto, imagens das câmeras de segurança de duas viaturas — obtidas com exclusividade pelo EXTRA — revelam que a abordagem durou 47 minutos, das 3h52m às 4h39m do dia 25.

As câmeras flagram o momento em que as motos passam por uma das viaturas, na Rua Almirante Alexandrino. Nenhum dos jovens usa capacete. Começa uma perseguição e um dos policiais, com o fuzil para fora da janela, dispara para o alto. Os jovens — com idades de 13 a 23 anos — então, param as motos. Um dos PMs pergunta se os garotos haviam jogado algo no chão. Em seguida, é possível ouvir, por duas vezes, gritos de dor.
Minutos depois, um dos policiais manobra a viatura, que fica virada para um portão, e a abordagem para de ser filmada. Segundo uma das vítimas, a mudança de local do carro foi proposital.

— Os PMs disseram para a gente que nada tinha sido filmado — diz um dos jovens.


No início da noite, policiais foram orientados: “Quem abordar, segura!”

De acordo com os depoimentos, nos quase 40 minutos em que as câmeras estão viradas para outro lado, os garotos são espancados, queimados com uma faca incandescente e têm dinheiro e celulares roubados. Dois deles, um de 17 e outro de 21, foram obrigados a praticar sexo oral um no outro, enquanto eram filmados por um PM com um celular.
As imagens das câmeras, que corroboram os depoimentos das vítimas e de duas testemunhas, levaram o MP a denunciar os os soldados Vinícius de Amorim Tosta, Jordane Cabral da Silva, Diogo Santos Bocks da Silva, Rafael Santos do Amaral, Wesley Medina Assis, Carlos André Lourenço do Nascimento, Helder Omena Ferreira Ribeiro, Antônio Carlos de Oliveira que estão presos, à Justiça. Os policiais respondem, na Auditoria Militar, pelos crimes de lesão corporal, roubo majorado e atentado violento ao pudor. Todos entraram na PM há menos de cinco anos.

Excessos nas abordagens

A íntegra da gravação tem cinco horas de duração, e mostra uma série de abordagens nos bairros de Santa Teresa e Catumbi. Pouco depois da meia-noite, logo no início do vídeo, todos os oito policiais, que estão divididos em duas viaturas, se reúnem. Um dos agentes orienta os demais: “Fica ciscando. Quem abordar, segura!”. Mais tarde, quando os seis jovens são abordados por um dos grupos, o outro logo é acionado e vai ao local.


Policial atira durante abordagem


Antes, na primeira abordagem flagrada pelas câmeras, a viatura emparelha com um homem numa moto. Após rápida conversa, um dos PMs afirma: “Tu é maconheiro, fala a verdade!”. Em seguida, os quatros policiais saem do veículo para fazer a revista. O homem é liberado minutos depois.

Já por volta de 1h46m, outra câmera mostra um policial atirando com uma escopeta, na Rua Catumbi, em direção a uma moto que furou o bloqueio de PMs. Na manhã seguinte, na 6ª DP (Cidade Nova), uma jovem de 21 anos acusou policiais do grupo de terem atirado contra a moto em que estava com o namorado. Ela foi acertada no rosto.
De acordo com o relatório da investigação, “os acusados efetuaram diversas abordagens e, na maioria delas, agem com emprego de força desproporcional aos casos”.

Jovem de 21 anos foi atingida por disparo de fuzil durante abordagens
Relatos contraditórios

Dois dos soldados denunciados se contradizem em seus depoimentos à Corregedoria. Wesley Medina Assis — um dos PMs que está na viatura que chega depois ao local da sessão de tortura — afirma que recebeu a informação de Vinicius de Amorim Tosta, que fazia parte do outro grupo, que “uma das motocicletas se evadiu da abordagem, conduzindo um elemento armado”. Já Tosta não cita o homem armado em seu depoimento: ele só diz que um dos passageiros jogou um vidro no chão antes da abordagem.
Na denúncia, o promotor Paulo Roberto Mello Cunha Jr. comparou a ação dos policiais em Santa Teresa aos Tonton Macoutes, uma força paramilitar que agiu a partir de 1959 no Haiti. Sob as ordens do ditador François Duvalier, o Papa Doc, eles eram acusados de torturas, assassinatos e prisões arbitrárias.
“Com efeito, é possível constatar — desgraçadamente — que policiais militares, cuja missão seria garantir a segurança e a ordem públicas, em plena noite de Natal, promoveram verdadeiro festim diabólico ao agirem como verdadeiros Tonton Macoutes a solta pelas ruas do Rio de Janeiro, em conduta que em nada os diferenciaria dos piores criminosos comuns”, escreve o promotor.

(Com informações e fotos Jornal Extra)

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